Foto: Comunicação HPPSL

Um dia recebi ligação de uma moça, que se identificou funcionária de Recursos Humanos do Hospital Psiquiátrico Professor Severino Lopes, perguntando se eu trabalhava com Biodanza. Sim, respondi. E aromaterapia? Também. Disse o nome da minha aluna de Biodanza que me indicou e perguntou se eu aceitava ir ao seu encontro para uma conversa sobre trabalho.

Como resultado, desde abril/2019 sou funcionária do hospital, onde foi criado o cargo de PROFISSIONAL DE PRÁTICAS INTEGRATIVAS COMPLEMENTARES para me acolher, ou seja, estou responsável pela implantação desta política pública na instituição com as práticas de Aromaterapia, Arteterapia, Biodanza, Meditação, Reflexologia, Reiki e Terapia Comunitária Integrativa para pacientes com ideação suicida, transtornos mentais e/ou dependência química e também para funcionários.

No meu longo e vasto currículo, de quem passou pelos três setores da economia em cinquenta anos de trabalho, tendo me saído muito bem ultimamente como autônoma oferecendo meus serviços, expertise e arte, jamais imaginei trabalhar na área da saúde, menos ainda em hospital e em nenhuma hipótese hospital psiquiátrico.

Parece até surreal, quase um milagre, ter a oportunidade de dançar, meditar, aromatizar, conversar, ensinar e aprender num ambiente tão denso e intenso, veloz e estranho, surpreendente e arrepiante, tudo ao mesmo tempo agora.

Um emprego que caiu no meu colo, embalado para presente, e quando abri a caixa aceitei receber o maior desafio profissional e pessoal da minha vida, que me faz renascer, ser grata, aprender e pedir inspiração para mais um dia em que volto à estaca zero, pois nunca sei o que pode acontecer.

A humanidade está doente. Sabemos. Basta ligar a TV e toneladas de sangue inundam tapetes de residências, academias, salões de beleza, restaurantes, salas de espera, ou bem ali, à mão, nas telas dos celulares e computadores. Más notícias, atrocidades, violências que acompanhamos, querendo ou não, porque “é normal”.

Estamos vivendo a NORMOSE – a patologia da normalidade, título do livro maravilhoso composto de transcrições de palestras dos grandes Mestres Roberto Crema, Jean Yves Leloup e Pierre Weil sobre o tema.

Normoticamente aceitamos o emprego que odiamos, a faculdade escolhida por outros, as relações que fazem sofrer, desfazer dos próprios sonhos e outras tantas coisas “porque Deus quis”, “porque é assim mesmo”, “porque não consigo sair disso” e outros tantos “porquês”.

Há pessoas, e nem percebemos na maioria das vezes, sensíveis, amorosas, afetivas, inteligentes, talentosas, que simplesmente não suportam tanta rudeza, grosseria, crueldade, brutalidade, feiura, desprezo, desrespeito, humilhação, violência. Elas querem e precisam fugir movidas apenas pelo instinto de sobrevivência, pois já estão desconectadas de si há muito mais tempo, e adoecem gravemente da alma, surtam, enlouquecem, drogam-se, suicidam-se.

São espectros da sociedade, sua sombra mais negra que ela não quer ver, e nega, ignora, fingindo que não existe. Há uma certa vergonha em ser internado num hospital psiquiátrico, um estigma, um rótulo. Este é o mundo do HPPSL.

Ali encontro pessoas miseráveis, analfabetas, que viviam em situação de rua, e também doutores, pós doutores, poliglotas, cultos.

Uma funcionária contou-me que, quando era adolescente, teve uma apendicite supurada que quase a levou à morte, tendo sido salva pelo médico que a atendeu e teve habilidade suficiente para a cirurgia pela qual passou num hospital público da cidade. Anos depois acolheu este médico no HPPSL sofrendo de profunda depressão.

Ele não a reconheceu e lhe disse que se sentia imprestável, inútil, estava mesmo muito mal. Ela lhe lembrou a menina que ele atendera e salvara tempos atrás e fez uma reflexão sobre a sabedoria da vida e os encontros inesperados.

Resumindo, pode ser qualquer pessoa a qualquer momento que, repentinamente, simplesmente não suporte mais a vida como ela é.

Sinto-me honrada pela experiência que esta oportunidade me proporciona como terapeuta e ser humano. Tenho conhecido pessoas e situações que até pouco tempo seriam inimagináveis, que só têm enriquecido minha vida como um todo.

É o que pretendo compartilhar neste espaço que intitulo HPPSL CHAMANDO, contando “causos” e minhas impressões, com objetivo de abrir espaço para este mundo tão esquecido das pessoas excluídas pelas suas condições de fragilidade mental.

Um dia atendi ao chamado e me deparei com um mundo curioso, surpreendente, assustador, fascinante, que provoca em mim verdadeiro e profundo amor e grande gratidão. Bem vindo/a!

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