Estou descobrindo “a dor e a delícia de ser o que é” (…Caetano).

Velha. O que muda?

Dentro de mim um ser atemporal habita, ancestral, futurista, presente, que não sabe de viver, sabe de existir…

Este ser pulsa, anima, move, sente, expressa… este ser sou eu, é você…

Inefável, transcendente, alma, espírito, anima, animus, tudo junto ao mesmo tempo agora, a essência.

Um. Uma.

O corpo vive, pulsa, expressa enquanto a chama está acesa.

Modifica-se com o tempo, passando por grandes transformações.

Habitava a escuridão com nada a fazer senão crescer e, de repente, LUZ!

O alimento e segurança vinham de um seio, um cheiro, uma sensação de saciedade, proteção e conforto oferecida por aquele ser adorável e, de repente, cenoura, batata, banana…

Rastejava pelo chão e, de repente, em pé!

E vem a menstruação para as meninas e o falo ereto e desejante dos meninos. O que fazer com isso?

Por tantas dúvidas passei pelo caminho da vida, no cumprimento da missão…

Caso? Não caso? Tenho filhos? Não tenho?

O destino, a missão, o acaso, seja lá o que for, fez com que muitas vezes me encontrasse em encruzilhadas, que precisavam de decisões sérias, definitivas, urgentes.

Todas tinham consequências.

E, no entanto, atravessei oceanos desconhecidos tentando acertar errando. E naveguei.

Sim, passei por temporais, mas também assisti espetáculos do sol, da lua, do céu infinito, dos mares, dos ventos, das chuvas, da  terra molhada, dos silêncios transcendentes, conexões e encontros comigo mesma.

De menina a mãe, de mãe a avó e agora, emocionada, de avó a BISAVÓ!

Olho no espelho, vejo meu corpo, meus cabelos brancos, sinto as limitações causadas pela psoríase resistente, o zumbido incômodo no ouvido, mas meu ser continua criativo, minha criança segue curiosa em sua busca eterna de horizontes, estou viva.

Beirando os setenta anos. Nesses tempos mórbidos, um milagre.

E mais uma mudança se instala.

A anciã ocupa seu espaço. Chega com sua compaixão. Emana a sabedoria acumulada no caminho…

Lembra-me o poema “Caminhantes…”, que diz que:

Caminhantes, caminhamos,

Por ermos caminhos.

Nos caminhos encontramos

Amores, burburinhos.

Humores desumanos, rumores escarninhos…

Mas caminho, caminho…

Em teias intrincadas vejo caras lavadas,

Cabelos em desalinho.

Ouço, ao longe, grandes mares,

Festas, risos, lupanares,

Ventos frios, caldos quentes,

Mas eu vou, eu sigo em frente.

Enfrento a vida, enfrento o medo,

Espreito frestas, arrombo portas,

Aceito o caos, vejo-me morta!…

E então renasço em flor pujante,

Ainda mais forte e mais fragrante,

E então caminho, a caminhante,

Sem me perder em lendas vãs,

Pois não há ôntens, nem amanhãs.” (…Isis de Castro)…

Pois é… “Envelhecer não é coisa para maricas” (…Rita Lee)…

Palavras de anciã. De mulher velha.

Meu corpo envelhecido desperta cuidados inesperados.

Um jovem ajuda a carregar um peso,

a subir ou descer da condução,

Alguém cede seu lugar numa fila…

Enfim, fatos que me informam como estou sendo vista agora.

De uma maneira diferente, bem diferente, de como era vista há até nem tanto tempo assim.

Esta é a percepção quando me coloco no lugar da observadora.

A adaptação é questão de tempo. Pura aceitação…

Repito as palavras proferidas por meu pai recentemente, do alto dos seus 92 anos, após ter tido a renovação da sua carteira de habilitação negada pelo DETRAN, tendo de reconhecer as impossibilidades que a cada dia se impõem com mais força: “Agora entendi o que está acontecendo comigo e sei que é irreversível.”

Assim é a percepção da chegada da velhice, sem nenhum sentido pejorativo, mas como um hino de gratidão, um sentimento de boas vindas, usando a favor.

Quando digo que estou velha comumente me interrompem com as famosas expressões “Imagina! Você não tem espelho?”, “Velha não, experiente!”, “Velha não, jovem há mais tempo”, “A velhice está na cabeça”, e coisas assim.

Parece que ser um mulher velha é algo muito ruim para essas pessoas, mas não para mim.

Costumo responder que esta é a boa notícia. Estou velha! Senão estaria morta.

Tenho consciência do tempo percorrido e da caminhada.

Muitas pessoas muito amadas não chegaram até aqui…

Aproveitar cada momento parece ser mais necessário e agradável,  o presente é o presente, tudo que existe… e que passa, passa, passa… inexoravelmente…

Logo estarei, com meus cabelos brancos, acolhendo Alice, minha primeira BISNETA, em meus braços. Filha da minha primeira NETA, Ariel, agora MÃE. Filha do meu primeiro FILHO, Rodrigo, agora AVÔ!…

Sinto a bênção de minha MÃE, de onde estiver, pairando sobre nós… bênçãos dos Ancestrais…

Que esta VELHICE saudável que acolho neste momento de minha vida, esteja cada vez mais integrada com a ETERNA CRIANÇA que me habita para continuarmos criando e vivendo de acordo com nosso único coração, compartilhado com todas que sou…

“…Que o novo venha em paz…” (Camomila Chá)…

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