DSC04409

QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO
Um estímulo ao conto autobiográfico

Logo que fui morar em Osasco andava muito a pé pela cidade, como faço sempre que chego a um novo lugar, para me situar, encontrar os pontos de referência, avaliar as distâncias, olhar o movimento, ver as pessoas, escutar os sons, como funciona o transporte, o que tem no comércio, enfim…

Numa caminhada dessas foi a primeira vez que a vi. Bem no centro do Largo de Osasco, onde fervilhava o terminal de ônibus e a estação de trem, milhares de pessoas transitando, ela dormia placidamente, bem agasalhada sob um cobertor, com uma touca na cabeça para enfrentar o frio fino que reinava, e ao seu redor três ou quatro cães dormiam, deitados de tal forma que a cercavam, ficando sobre a coberta, mantendo-a em seu lugar.

Aquela imagem impactou-me fortemente pela sua singeleza em meio aquele insano caos urbano. Fotografei.

A partir daí passei a vê-la com frequência, pois o ônibus que eu pegava todos os dias para trabalhar passava pelo largo, onde ela se instalou exatamente em frente ao ponto por onde eu passava.

Vi-a de várias formas. Ela delimitou um espaço com papelões pelo chão, onde colocava coisas que encontrava pelas ruas e vivia dentro daquele território, como se estivesse “em casa”. Falava sozinha, cantava, formou um cenário digno de um  teatro e agia como se não estivesse ali, embora às vezes pedisse esmola aos transeuntes.

O que mais me impressionava eram suas malas, que ela mantinha em ordem ritual e todo dia trocava de roupa. Muitas vezes estava terminando seus cuidados matinais quando passávamos por ali.

Sua presença foi tão forte para mim nessa época em que estava me instalando na cidade, que muitas vezes juntei lanches que sobravam no meu local de trabalho e levei para ela, embora representasse uma boa caminhada a pé carregando um peso considerável. Quando lhe entregava ela me olhava como se visse através de mim. Nunca vi um olhar como aquele. E sempre agradecia.

Admirava a forma como ela tentava sobreviver naquela situação, pensava de onde será que tinha vindo, na sua inconsciência do que estampava aos olhos de quem passava, pois percebi que não era só eu que a observava. Ouvi muitos comentários das pessoas à volta sobre como a viam e isso me inspirou a prestar-lhe uma homenagem, que serve também a todas as mulheres que, como ela, tentam sobreviver em meio ao caos urbano massacrante que nos tira o bom humor, a capacidade de amar, o sonho, a imaginação, que nos lança numa solidão profunda cercada de pessoas estranhas.

Um hino de sobrevivência. Um alerta. É bom às vezes imaginarmos nosso avesso. Acho que foi isso que fiz, vi-me nela e eis o resultado:

MARIA DE QUÊ?

Maria…  Maria de quê?

Interessa a você?  Você que me vê decrépita, decadente,

a boca com pouco dente, com este aspecto doente,

jogada na rua, sentindo-me nua,  ouvindo dizerem: “Maria? É de lua!”

Estes que me vêm nesta condição em que me encontro, esta perdição,

dirão: “Maria? Não sei quem é não…”

É duro manter a dignidade, o mínimo de higiene, integridade,

para não enlouquecer de verdade.

Apenas os cães sabem de mim agora.

Cuidam, zelam meu sono na hora do dia em que meu corpo chora,

por sentir falta de calor, de alguém que por mim sinta amor,

respeito, carinho, para consolar um pouquinho a dor…

Rua… a rua ensina lições duras.

Penso que esta solidão me cura de dores passadas, depura…

O que será que pensa quem passa?

Que louca é essa… Que tipo? Que raça?

Que mulher esquisita, chula, sem graça…

Mas eis-me aqui, segurando a peteca.

De pé para não cair, aceitando qualquer merreca,

Pedindo uma ajuda, centavos…

Para acabar com os piolhos fiquei até careca.

Eles me infernizavam e cobriam nas longas noites frias em que,

acordada com meus cães, que vinham e iam,

morria de medo de tudo que se mexia…

Não dá para descrever este calvário sem luz…

Olho em volta, busco saídas sentindo o peso da cruz,

em meio a um túnel escuro não há nada que reluz?!?!?!?

Decadente, sim. Acabada? Jamais!

Minhas malas em ordem, roupa limpa no caos,

sem perder a fé no poder de querer mais.

Varro os cacos, limpo a lama e ainda vejo horizonte…

Ainda que esteja, no momento, distante.

Mas está lá e é pra lá que eu vou.

E vou “chegar lá”… seja lá onde for, porque ainda creio no amor.

Porque ainda ouço meu ser gritante.

QUER SABER MAIS SOBRE TEMPO DE ESCOLHA, ACESSE:

Sobre

QUER SABER MAIS SOBRE ISIS DE CASTRO, ACESSE:

Isis de Castro

 

Comentários

Comentários