“…é só mistério, não tem segredo…” (Marisa Monte)

…QUEM CONTA UM PONTO AUMENTA UM PONTO… ESTE É UM CONTO PARA QUEM QUER MAIS UMA VEZ SE LEMBRAR DE ONDE VIEMOS E PARA ONDE VAMOS… SOMOS TODOS UM… UM CASO DE AMOR…

Você gosta de mistério?   Então vou contar uma história…

Há algum tempo gosto de  ir ao cemitério para meditar, num ritual pessoal de conexão e gratidão aos ancestrais. Coisas de mulher velha.

Em todos os lugares que morei desde que adotei este hábito, e não foram poucos, elegi cemitérios que visitava vez em quando e lá escolhia um espaço, em geral o Cruzeiro, local onde se costuma acender velas e orar, para me harmonizar e meditar.

Sempre me faz bem ouvir aquele silêncio que mescla morte e vida.

Na Terra Natal, apaixonei-me pelo Cemitério da Vila de Ponta Negra.

Muito desligada, embora passasse com frequência pelo local, demorei um bom tempo para perceber que aquele longo muro branco pelo qual o ônibus passava era um cemitério. Na verdade foi quando alguém pediu ao cobrador que avisasse quando chegasse ao cemitério.

Uau! De frente para o mar era um luxo! Tinha de conhecer…

No primeiro dia que lá entrei, automaticamente busquei o Cruzeiro com o olhar, porem dei de cara com aquela árvore impressionante, imensa e majestosa, dominando a paisagem daquele mar de túmulos, nutrindo-se de água e chorume.

Sua imagem potente chamou minha atenção e atraiu e me vi caminhando em sua direção, meio trôpega entre as lápides, pela emoção que me causava.

Chegando a Ela passei a admirá-la. Pelo menos dez pessoas de mãos dadas seriam necessárias para rodeá-la. Seu tronco largo era profundo e as raízes saltavam da terra formando bancos sólidos e antigos onde me acomodei.

Ao sentar, senti logo seu vigor rugoso sob minhas mãos e pernas, uma sensação muito agradável e primitiva. Uma alegria sem explicação.

Olhando à frente o longo muro branco, agora por dentro, vislumbrando por cima dele nada mais, nada menos, do que o oceano no mar de Ponta Negra, iluminado pelo Sol da Terra do Sol.

Êxtase!

Na sombra cedida por aquele Ser antigo e generoso, sentada sobre uma de suas sólidas raízes,  só via beleza e luz à minha frente.

Aquele era um momento de profunda transformação em minha vida e tinha muitas dúvidas, saudades e tristezas, mas naquele momento minha mente esvaziou e senti-me profundamente conectada ao céu e à terra, tendo como elo aquele Ser que, sem palavras, me comunicava tanta coisa.

Não sei quanto tempo levei naquele torpor prazeroso e de total presença, respirando todos os aromas e sentindo em minhas mãos, bunda, pernas a rugosidade sonora e ancestral daquela madeira envelhecendo à beira mar.

Ao despertar olhei para o alto e deparei-me com uma copa compacta e entremeada de galhos, ramos, cipós, folhas que interagiam entre si e brotavam, se mesclavam, secavam, morriam, se renovavam.

Procurei alguma fruta ou fruto para identificar que tipo de árvore era aquela, esquadrinhei tudo que minha vista alcançava, mas não havia nada.

Ainda não tínhamos sido apresentados e meus parcos conhecimentos de biologia e uma vida toda na personagem de “urbanoide juramentada”, não me davam nenhuma indicação de quem era aquela criatura extraordinária.

Sua Majestade reinava sobre toda aquela área soberanamente, acolhendo várias espécies de seres vivos e fiquei ouvindo um pouco seu ruído – pássaros, calangos, formigas, besouros, abelhas, mosquitos, lagartas, aranhas, bromélias, corujas, morcegos, borboletas, beija-flores, cogumelos, vento…

Recém-chegada de outra realidade, não sabia ainda reconhecer aquela árvore, que é abundantemente frutífera no seu devido tempo, cuja fruta é um dos símbolos da Terra Natal e ali, enquanto olhava sua frondosa copa totalmente desprovida de frutos, ainda me perguntava intimamente que árvore seria aquela.

Voltei a me absorver pelas águas do mar, ondulando, ondulando, ondulando à minha frente, todo verde e branco e azul, até que algo na minha visão periférica me alertou e, quando voltei o olhar, pasma fiquei ao ver um único e exuberante caju, amarelo-laranja, brilhar em meio ao verde-marrom.

Chorei de emoção. Minhas mãos sentiam o pulsar da seiva daquele cajueiro ancião, que em sua sabedoria secular comunicou-se comigo porque ali éramos um.

Esta vivencia solitária marcou-me indelével. Ainda hoje, quando escrevo, renovo em mim a mesma emoção, indescritível o que suscita e desperta.

Saí dali fortalecida e amparada, já não estava mais só e muitas vezes, em sete anos que por ali morei, fui visitar meu amigo Cajueiro do Cemitério e o vi e senti de várias formas, no verão e na chuva.

Fui-me embora para outro canto e voltei algum tempo depois e, claro, fui visitar e rever o amigo, que me deu as boas vindas, sua sombra e o mar, que já não era mais tão visível, pois haviam construído um prédio no entremeio, mas que ainda tinha a me oferecer aquela velha paz que me nutria.

Dia desses passei por ali e senti falta de sua frondosa copa sobressaindo dos muros e pensei, não é possível!

Dias depois fui lá conferir e, sim, o portentoso Cajueiro do Cemitério não estava mais lá. Senti uma punhalada no coração.

Olhei em volta, com cara de não sei o quê, pois o funcionário que me olhava já foi logo explicando que, sim, ele havia sido derrubado, “mas tudo dentro da lei, viu, dona”, com autorizações e coisa e tal, porque estava muito doente e sujeito a quebrar e cair a qualquer momento, podendo causar algum acidente e destruição pelo seu peso e volume.

Agradeci. E chorei. Fui andar para ver se achava outro canto para meditar, mas minha atenção estava presa àquele vazio deixado pelo meu amigo.

Um grande buraco no meio do nada.

É isso. Cajueiro do Cemitério morreu. Despedi-me dele, senti sua presença acolhedora, sua sombra e  a rugosidade nas minhas mãos.

No fim tudo vira chuva mesmo.

O que fica é gratidão.

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