“QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO”

O sábado ensolarado, merecida folga, convidava à aventura.

Em casa, sem plano nenhum, recebo ligação de Carlos pedindo que desse uma carona a ele e seus amigos para um passeio à cachoeira que tantas vezes havíamos visitado, uma linda queda d´água em meio ao que sobrava de Mata Atlântica nos arredores da cidade, num terreno acidentado o suficiente para os amantes do Rappel, a finalidade da ida ao local. Eles queriam praticar, não tinham carro e não havia outro meio de chegar lá.

Para quem estava morgando e passando calor em casa, aceitei sem pestanejar. O caminho é lindo, em meio às árvores e passarinhos, muito verde, paisagens inspiradoras e boa companhia…

Fui buscá-los no local combinado e lá fomos nós animadamente, comentando as possibilidades de diversão, o clima quente e agradável, a beleza do lugar, antecipando emoções.

Chegando lá, logo se organizaram e se afastaram em busca dos locais adequados. Carlos era um “expert” das matas e práticas radicais, amava o que fazia, adorava ensinar, estava pleno de poder.

Mais comedida, medrosa, instalei-me sobre uma pedra apreciando e aguçando os sentidos em meio àquela paz animada pelas falas e risadas distantes.

Como é bom comungar com a natureza!…

Naquela solidão, fui-me dando conta do som agradável da cachoeira que estava logo ali atrás, caminhando um pouco mais para cima. O silêncio e a toada constantes começaram a preencher meus espaços internos. Fechei os olhos e me deliciei naquela sintonia inusitada.

O calor foi aumentando enquanto o tempo avançava, o sol caminhando para seu apogeu, esquentando tudo, meu corpo e alma, meus líquidos fervendo dentro de mim, enquanto logo ali estava a melhor solução!

Aos poucos fui-me deixando seduzir pelo canto da sereia, sentindo o suor brotando do rosto e de todo o corpo enquanto aquelas águas sussurravam “venhaaaaaaaaaaaa”…

À época era uma pessoa legal, mas bem formal, exercia um cargo executivo de certa relevância, acostumada aos saltos altos corporativos, embora não me sentisse á vontade, mas era meu trabalho.

Enquanto DIVA-gava percebi que ali não era ninguém. Em meio aquele tudo e aquele nada, nem nome possuía. Era ninguém compondo aquela paisagem à qual me sentia cada vez mais conectada, mais parte daquela parcela do todo.

Neste devaneio, enquanto minha mulher selvagem gritava VÁ E FAÇA O QUE TEM VONTADE, a mulher reprimida permanecia rígida, negando seu suor, sua emoção, seu desejo, como de costume.

De forma inexplicável, um impulso íntimo e incontrolável me guiou e quando me dei conta fiz algo que não me julgaria capaz naquele momento de minha vida.

Seguindo meu desejo mais profundo, levantei de onde estava e caminhei lenta e decididamente em direção àquela voz que me chamava, sorrindo e antegozando a travessura que decidira fazer, tão fora de meus padrões cinquentões.

Chegando bem perto, apenas me descalcei e entrei, como estava, de roupa e tudo, enfiando-me embaixo daquela deliciosa queda d´água, tão fácil de me encaixar, que me acolheu alegremente lavando-me toda.

Recebi com grande prazer sua força sobre minha cabeça, espalhando-se por todo meu corpo, refrescando a alma, iluminando pensamentos e trazendo uma alegria que há muito não sentia – a de ter o desfrute orgiástico de uma criança profundamente conectada com a realização de seu desejo.

Meu corpo vibrava e se entregava a ela. Ria, ria muito de puro prazer e alegria. Carlos e seus amigos, à distância, vinham apreciando meu movimento e não resistiram, quando vi estavam lá, junto comigo, e nos divertimos muito mesmo.

Um momento sublime de fartura de sons, luzes, cores, calor e refrescância que gozamos juntos pela ousadia de romper o habitual e deixar o inesperado acontecer, o desejo da alma ser mais forte para realizar fantasias em êxtase e inocência.

Carlos não acreditava que era eu mesma fazendo aquela presepada, uma medrosa crônica de tantas coisas.

Até para mim mesma foi uma grande surpresa, culminada pela presença de pessoas queridas compartilhando.

Este momento inesquecível que ora descrevo com tantos detalhes e nuances me fez compreender que a felicidade é simples. Basta deixar acontecer…

 

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