...E O MAR DIVINAMENTE INDIFERENTE...

Fotos: Isis de Castro.

O MAR A MOR OU APENAS SER…

Bom tempo dediquei hoje a observar a dança desse homem sobre as águas. Que coisa linda… Ele totalmente imerso em seu movimento de onda. Totalmente onda no mar. Embaixo de seus pés um pedaço de plástico amarrado a seu tornozelo, dava-lhe “sustentação”. Um longo remo em suas mãos, usado com maestria, dava-lhe equilíbrio e direção. Vi como ele adequava instintivamente seu movimento ao que sentia nos pés e à sua volta: agachar-se, levantar-se, equilibrar-se para um lado ou outro, passo para frente ou para trás, uso do remo ou não, e lá ia ele, feliz da vida, ondina, ondina do mar… Entregue às águas e aos ventos, apenas fluindo… Vi tombos que me assustaram, ele lá longe, depois da arrebentação, não via sua cabeça, de repente ressurgia, subia na prancha de novo, com seu indefectível remo, e prosseguia… Total interação do homem com a natureza, com o ritmo natural do mar. Pensei em Cristo andando sobre as águas… Será que foi assim? Aquele homem para mim, que o observava e admirava, naquele momento era um deus, filho de Poseidon com seu tridente mirim, aprendendo a dominar os mares. Às vezes pegava uma onda boa, fluía com ela com leveza, embalado, até a arrebentação e, com seu remo, manobrava seu tapete navegador e voltava para o mar alto. Tenho orgulho de uma pessoa com tamanha coragem. Sinto inveja também… Gostaria de me atirar a uma aventura dessas com força e com coragem, mas sinto medo. Muito medo do mar. E fascínio, que me atrai e me refresca, me limpa e me lava cada vez que me permito. Hoje estava triste, desanimada diante do tédio, das más notícias, das conversas fiadas recheadas de mesmices, das perdas, das mortes, das doenças, dos mistérios da vida. E da morte. Sabia que precisava de MAR. Peguei minha cadeirinha, cheguei lá, molhei meus pés e agradeci, ali sentei e fiquei olhando, como gosto de fazer, tudo à minha volta, com foco no oceano infinito que vinha e voltava diante de mim. Algumas pessoas na água e aquele homem… um atleta, uma ondina, um silfo, um Anjo dos Mares… Observei sua flexibilidade e resiliência, sua humildade na queda, sua habilidade e experiência, sua concentração absoluta… Pensei que naquela distância que estava da praia devia ser uma incrível meditação, olhando-o, inspirando-me nele, flutuei sobre o mar utilizando minha imaginação criativa, vi-me estirada sobre uma jangada confortavelmente, sem medo nenhum, ouvindo apenas aquele silêncio à minha volta, um murmúrio ancestral, um lamento, uma memória, deixando vibrar em mim todo o movimento de vida que acontecia embaixo de mim, fluxos e refluxos, marés, a natureza submersa que só podemos imaginar, baseados nas imagens que vemos dos mais audazes, que se arriscam e nos oferecem o vislumbrar do que há por dentro dos 7 mares… O sol… que lambia meu corpo de cima a baixo, dentro e fora, aquecendo, iluminando, transmutando… Salamandras fogosas, agindo nas transformações necessárias… A areia sob meus pés, que se movimentam em todas as direções, trazendo deliciosas sensações que se espalham pelo meu corpo com auxílio dos gnomos e duendes, contribuindo para um prazer infantil, cenestésico, auspicioso… Foi muito gostoso o que senti… Uma comunhão com tudo à minha volta… E gostoso vem de gosto, sabor, sensação tátil, sutil, sal, sol, areia, mar… O mar A mor… Entrega… Abandono… Desapego… Confiança… Ver-se no outro/na outra… aprender com o outro/outra… VIVA 2021!…

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