desapego 

         Confio… Coisas da ingenuidade… Confio na vida, nos deuses, na força benéfica da natureza, na transformação, no cio, no luar, na flor, no beija flor… Ah, o beija flor…

Um dia, sem quê nem pra quê, veio-me à mente uma frase: O segredo do sucesso é o desapego…

Desde então tem sido tema de minhas profundas reflexões, pois o apego faz parte de nossa vida desde o momento em que grudamos no seio materno e não queremos mais soltá-lo.

A mim soa como perda, embora minha inteligência racional queira discordar.

Meu sentimento, entretanto, que é uma fina teia de sensações ultra sensíveis, ainda recebe como perda…

Como integrar a percepção inteligente com a teia sensível da emoção?…

Confio… Coisas da ingenuidade… Confio na vida, nos deuses, na força benéfica da natureza, na transformação, no cio, no luar, na flor, no beija flor… Ah, o beija flor…

Como eliminar a paixão sanguínea pela vida e, friamente, como Sherlock Holmes, analisar, ponderar, prever e constatar os acontecimentos, concluindo e acertando, com total desapego aos envolvidos, como se não passassem de marionetes com enredo previsível?

Singular… Coisas do coração…

Será que devo abandonar minha firme convicção de que todo ser humano merece oportunidade? Que longo aprendizado de dor é esse e quando vai terminar?

Confio… Coisas da ingenuidade…

Confio na vida, nos deuses, na força benéfica da natureza, na transformação, no cio, no luar, na flor, no beija flor… Ah, o beija flor…

Não há melhor representação da entrega! A flor abrindo-se confiante à delicadeza do toque do beija flor que, com seu longo bico e delicada pressão sabe o tempo certo para sugar dela o melhor, sem exauri-la, deixando-o nutrido, satisfeitos ambos…

Macho e fêmea… Um delírio! Não há nenhuma outra sensação que se aproxime do que ocorre na explosão sexual dos opostos. Quando há verdadeira entrega, o prazer é um acontecimento que reverbera e se expande no espaço, no tempo, no vento, na lua, no infinito… é um momento que se éter… niza…

Leveza… Coisas da mente…

Certamente mais transcendente do que a entrega carnal, do abandono total, seja o pacífico encontro com a morte. O momento do total desapego, da grande transformação, do fim e do começo, como a própria eternidade.

Ser partícula da eternidade… Coisas da alma…

Assumir ser partícula eterna, parte do todo que se renova sempre, sem parar sequer um momento…

Mesmo assim, sabendo de tudo isto, teimo em me apegar a circunstâncias, situações, pessoas, crenças, dogmas…

Olho para dentro de mim e penso por que, lá no fundo do peito, não há respostas para minhas próprias palavras… Parece haver duas de mim. Uma para fora e outra para dentro.

A de fora é forte, rija, compreensiva, capaz, competente, independente, livre e solitária. A de dentro é deusa, densa, quente, fluida, hermética, guardada, protegida, porque fibrila o tempo todo e é facilmente exposta a dor.

E aí descubro que o amor transcende o apego, pois depende de uma química, de uma intensidade simbiótica, de uma nutrição mútua, de um mesmo fôlego, de uma sintonia…

De repente, saturam-se, ficam fartos, perde-se, então, o controle. Controle?

Tive a ilusão de ter o controle da minha vida. Pior. Tive o desvario de achar que era capaz de controlar a vida das pessoas que amava. Ledo engano…

É um cabo de guerra. Uma tensão constante onde não se relaxa nunca. Uma punheta eterna.  Uma tentativa demoníaca de deter raios, desviar furacões, transformar tempestades em chuviscos e terremotos em samba do crioulo doido.

Loucura… Coisas insanas…

“Entregue-se à vida com uma profunda confiança, seja qual for o lugar para onde ela o dirija…” Primeiro sinal num livro de Rajneesh que caiu em minhas mãos. A Semente de Mostarda.

Entregar-se… Entregar-me… Palavras que ecoam em mim há muito tempo. Um processo lento, sutil, regenerador, iniciado através da Biodanza. O exercício da entrega pela respiração, em momentos de abandono às próprias sensações, sem medo, sem hipocrisia, apenas aceitando e recebendo com carinho minha própria energia feminina.

Até então o mundo só havia me convidado para a energia masculina. A conquista, a sedução, a disputa, a concorrência, o vencer a qualquer preço, ser a melhor em todas as batalhas, vencer sempre! Uma verdadeira amazona moderna, o sexo feito por cima, o domínio, a dona da situação.

Abaixo o machismo! É muito sofrimento.

Uma tensão imensa para nada. Defendendo-me o tempo todo de enormes moinhos de vento, numa atitude grotescamente quixotesca, cercada por legiões de “sanchopanças” lerdos e vorazes, dos quais tornava-me sempre ídolo pela minha audácia e coragem, pelo meu ódio inflamado pelas injustiças.

Um dia acordei. Absolutamente exausta. Anos de lutas para nada. Das trombetas dos arautos da minha imaginação restaram apenas os ecos…

Rocinante jazia extenuado e a pior de todas as constatações: nada, absolutamente nada havia mudado.

As pessoas continuavam levando suas vidas e eu não havia contribuído em nada para elas e nem mesmo para mim.

Precisei de tempo para ter a certeza de ter-me recuperado. Era preciso mudar.

Então descubro que sou generosa.

Generosidade é ampliar a capacidade de dar e receber permanentemente. Não há limites para ela.

Entretanto, é fácil ser generoso com a criança que pede, com a mãe desesperada, com o caminhante faminto e empoeirado. O grande desafio é a generosidade com o vaidoso, orgulhoso, avarento, mesquinho, tarado, pobre de espírito, porque estas são fomes da alma, tão avassaladoras e rápidas em seus efeitos quanto a fome do corpo.

Fome é aquele estado em que nada é mais importante do que o que a sacie. Não dá para pensar, discernir, escolher, crescer, se há fome. Não dá sequer para ser generoso. Estar aberto para o novo significa estar saciado, pronto, alerta, receptivo.

Quero ser generosa com os famintos da alma, aqueles que não amam porque não têm amor nem por si mesmos. Perderam totalmente a conexão com o sagrado. Não sabem e não conhecem sua luz. Quero ser generosa com esses.

awebic-30-coisas-9

Livre pensar é só pensar, diz Millôr Fernandes…

Viajar nos pensamentos abre a mente, mas a verdadeira viagem é a total ausência de pensamento.

Viajar de avião… Uma aventura… Uma fascinação…

É bom voar em belos dias de sol, com pouca turbulência e ótima visibilidade. Os olhos passeando pelas paisagens, criando desenhos, exercitando a imaginação. Mas há outras viagens fascinantes como essa, que provocam quedas e enlevos sem precisar tirar os pés do chão.

A viagem da vida… Ao nascer, após uma viagem aquática de nove lunações, fui conquistando espaço até não caber mais, para ser recebida e amada porque era um lindo bebê e quem não se comove e sensibiliza diante de um lindo bebê?

Certamente alguns me acharam parecida com um ou com outro, fizeram prognósticos, acharam-me uma gracinha… Enfim…

Aí cresci, e ao crescer era preciso que me tornasse igual, pertencesse ao rebanho, aceitasse “as coisas como elas são” sem questionar, me conformasse, casasse virgem, tivesse filhos, fosse dona de casa e não pensasse…

O problema é que eu tinha uma grande, prodigiosa, poderosa imaginação, que foi alimentada incansavelmente pela leitura. Uma infância povoada de personagens maravilhosos…

Ao mesmo tempo em que lia bastante, era obrigada a não pensar, apenas obedecer… Que paradoxo!

Esta era a ordem absolutamente incompreensível.

Fui uma criança criada como um pássaro na gaiola. Tinha asas, conhecia-as, sabia que podia e desejava voar, mas meu corpo estava contido pelos limites de uma gaiola, cujas grades tinham nomes: virgindade, preconceito, sexo, desconhecimento, medo, desamor, desafeto, ignorância e tantos outros nomes que serviam para tolher, coibir, ameaçar, atrofiar…

Gosto de Brecht quando diz que “muito se fala da violência do rio que transborda, invade casas, destrói árvores, mas nada se fala da violência das margens que o comprimem…”

Meus olhos não foram vendados e, aguçados, enxergavam muito, os horizontes estavam ali, ao alcance, só precisava identificar portas, frestas, pessoas, cores, possibilidades, alternativas, oportunidades, perigos, idéias – tanta coisa – quase palpável…

Foi assim que o desejo não esmoreceu. Era preciso me libertar.

Durante muito tempo sofri por não saber como realizar esse sonho. Parecia totalmente impossível.

Às vezes achava que tinha conseguido, mas meu coração voltava às grades da gaiola, afinal, ali era minha zona de conforto, ou havia sido durante tantos anos.

Ao mesmo tempo em que ansiava pela liberdade desesperadamente, acostumara-me cronicamente ao cativeiro, pois não sabia exatamente como viver a liberdade.

Nesta viagem da vida caminhei, titubeei, cansei, desisti, retomei, corri, sufoquei, chorei, suei, sofri, caí, e, finalmente, levantei. E ao levantar-me de verdade percebi que tinha crescido e, ao me esticar completamente, quebrei – sim – quebrei a gaiola, pois não cabia mais nela.

Fazia tempo que não cabia mais, mas, pelo hábito, para entrar lá, encolhia-me e ficava tão pequenininha que acabava tendo a ilusão de que ainda cabia e que ali estava protegida.

Eis que agora é possível olhar e avançar na direção do horizonte, ampliando-o e testando minhas asas, sentindo que, afinal, não estão tão danificadas assim. Cresceram sim, estão um tanto tortas e atrofiadas, nada que umas boas horas de treino não ponham em dia, porque agora estão verdadeiramente livres e soltas.

Talvez um pouquinho deformadas, mas não perderam em sua musculatura o imenso desejo de voar, de abrir toda sua envergadura testando, sentindo seu poder, permitindo que, finalmente, a imaginação e o sonho assumam o domínio, conduzindo-as para os reais objetivos de vida, amando cada momento, perdoando todo o passado, vivendo cada segundo eternamente.

Santo e pecador… Luz e sombra… Dia e noite… Vida e morte… dois lados – uma moeda.

 

do livro Glub, glub, glub,,, acesse: http://www.portalescritor.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=504

QUER SABER MAIS SOBRE TEMPO DE ESCOLHA, ACESSE:

Sobre

QUER SABER MAIS SOBRE ISIS DE CASTRO, ACESSE:

Isis de Castro

 

 

Comentários

Comentários