mulher velha1

Quero falar sobre a velhice. Aquele assunto que, como a morte, ninguém quer falar.

São criados eufemismos para amenizar socialmente, como os horríveis “terceira idade”, “melhor idade”, “idade do condor” e outros, pois o medo dos que estão vivendo o que acreditam ser a “eterna juventude” respinga fortemente naqueles que “atravessam o umbral”, os que “chegam lá” que, creio, é um grande privilégio.

Há muitos anos atrás conheci Abarê, carioca de setenta e poucos anos, que aparentava em seu corpo enrugado, mas não na sua atitude e postura na vida. Tinha vigor, tesão, era bonito, atraente, sedutor, inteligente. Casado com uma mulher bem mais nova, tinha uma filha pequena na época.

Trabalhamos juntos, conversávamos muito, eu no verdor dos meus trinta e poucos, no apogeu do mito da “eterna juventude”.

Ele me falava sobre a dificuldade de ter um corpo que envelhecia e um espírito sempre jovem. Os preconceitos que sofria, as exclusões, os julgamentos, os palpites daqueles que dizem “eu sei o que é melhor para você” e tudo aquilo me parecia muito distante, afinal, eu era jovem, não tinha tempo, estava muito ocupada reclamando do dia que só tinha 24 horas.

Ele me dizia que meu dia ia chegar e, pelo que via em mim, eu também sofreria algumas incompreensões e sofreria pela minha sensibilidade, assim como ele.

E aí, sim, chegou a minha vez. E senti passar por mim mais uma transformação no meu corpo de mulher.

Depois da menarca, da virgindade e da gravidez, chegou retumbantemente menopausa.

Um marco físico, psíquico, espiritual e social que recebi com resistência, não aceitava aquela mudança e foi difícil porque me alinhei com este pensamento do senso comum de que “velho está passado”, “quem gosta de velho é museu”, “velha é sua avó” e outras pérolas.

E então aqueles que “dão atenção”, colocam gentilmente a pessoa velha diante da televisão e a deixam lá. Oi vó, tchau vó, oi mãe, tchau mãe, e a vida real e os programas da TV começam a se confundir na mente da pessoa velha, que vê no espelho a imagem de olhos baços e infelizes, boca caída e pele flácida. Pura decadência.

E ainda é obrigada a ouvir coisas como “você tem casa, comida e roupa lavada e ainda vê os seus netos crescerem, o que mais você quer?” E aí você se atreve e quer. Quer muito. Quer mais do que a vida passando na sua frente, quer viver, continuar participando, porque só o que mudou foi o corpo, mas quem olha vê uma pessoa velha, “passada” e o tratamento muda.

Há sim os que respeitam, amam e entendem. Mas os que “não podem nem ver”, que não respeitam, às vezes até odeiam por projeções de suas próprias histórias, desfazem, desqualificam, não tem paciência e são cruéis.

É preciso aprender a lidar com estas mudanças, superar as mágoas e incompreensões e, acima de tudo, perdoar incondicionalmente.

Esta é a boa notícia. É possível atravessar esta tormenta incólume, deixando as cracas para trás e transformando “ofensas” em ruídos, porque ruídos são.

Ao perdoar incondicionalmente a si, a tudo e todos, sem julgamento de merecimento, abre-se o entendimento de que esta atitude é libertadora e curadora.

Descobri que podia ser leve, despedindo-me do que já não mais servia para dar espaço à nova criança. Aquela do corpo velho e olhos brilhantes, que tem a rédea da sua vida e do seu corpo. Que ama seus peitos caídos, que já foram chupados com volúpia, suas rugas que representam seus avanços na vida e começa a se reconhecer com amor próprio e aceitação integral do momento presente, integrando-se no movimento natural da vida.

Nascimento – Vida – Morte

Vida – Infância – Adolescência – Juventude – Idade Adulta – Maturidade – Velhice

Cada tempo um corpo, lembra? Você era uma semente,virou um bebê, maturou, nasceu. Tudo é assim. E nós também somos tudo.

Falo de mim, da minha experiência, mas gostaria de conhecer outras histórias, sentimentos, pois creio que compartilhar ajuda na transmutação das tristezas em passado e vemos que tem mais gente no processo.

Envelhecer é um fenômeno recente. Meus avôs não conheci, morreram cedo. Minha avó materna aos 42. Só conheci a avó paterna, que, aos meus olhos de criança, era “bem velhinha”, e se foi as 72. Meu pai não conheceu o pai nem minha mãe sua mãe. Assim eram as famílias antigamente.

Precisamos nos acostumar a esta nova realidade, vivemos mais, portanto envelhecemos e vivemos a velhice. Aceitando e entendendo cada etapa, é possível ter muita qualidade de vida, lucidez e autonomia.

Descobri que para bem envelhecer tinha de me olhar no espelho sem buscar resquícios da juventude mas descobrindo minha beleza de mulher velha.

Tenho aprendido que o maior benefício da velhice é a sabedoria adquirida a partir da observação. Um estranhamento, próximo do que preconiza Brecht. Ao “sair de cena”, sendo excluída das situações, o olhar passa a ser de observador e, de tanto observar, começamos a rir do orgulho, da ostentação, da vaidade, da inveja, da traição e a sabedoria da nova criança emerge para bem viver a velhice, para manter a energia criativa em movimento, para não se deixar abater ´por línguas maledicentes, para não ter vergonha de si mesmo e para ter sonhos sim! Muitos sonhos lindos para se manter na estrada até quando Deus quiser, com dignidade,vendo horizontes à frente para avançar enquanto “o pulso ainda pulsa”, pois afinal, o que importa mesmo é ser feliz.

ENJUVELHECER OU CICLOS NO INTERIOR DE CICLOS… – Isis de Castro

Quer conhecer mais sobre Tempo de Escolha, acesse:

Sobre

 

Quer conhecer mais sobre Isis de Castro, acesse:

Isis de Castro

 

 

 

Comentários

Comentários