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QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO.

Quando ela abriu os olhos, escuridão. Breu total. A voz da menina gritava dentro dela MÃÃÃÃÃÃÃÃEEEEEE!!! Mas a mãe não vinha.

Fechou os olhos de novo. Os ouvidos zuniam como mil abelhas. Os olhos ardiam. Na boca um gosto nunca sentido, que não podia identificar. A cabeça latejava. Sangue bombando. As narinas encontraram um ar rarefeito, que logo tratou de economizar. Respirava lentamente. Deu-se conta de que estava soterrada e não era capaz de sentir o próprio corpo. Isto assustou-a tremendamente causando um tremor que perpassou pelo centro do corpo,  causando um arrepio profundo, acendendo os sinais da coluna vertebral. Um alívio. Aparentemente algo a impedia de se mexer mas o corpo estava vivo.

O que acontecera? Não conseguia lembrar. Percebeu que estava cansada. O cheiro da terra acalmava. Era cheiro de colo de mãe. Entregou-se. Uma grande lassidão invadiu-a e sentiu mãos massageando seu corpo. Um brilho diferente começou a cobri-lo e ela via e sentia este movimento sutil e profundo, apesar da escuridão, e se sentiu acolhida.

Um silêncio completo se abateu e era bom. Um lindo sorriso aflorou e desarmou todas as máscaras, que foram caindo por terra, silenciosamente, sem alarde – a boazinha, a rancorosa, a ciumenta, a invejosa, a fofoqueira, a mentirosa, a infeliz, a vil, a covarde, uma a uma se esvaindo.

Em seu sorriso de paz, veio-lhe a imagem de carneirinhos pulando a cerca para dar sono, nomeava-os e despedia-se deles.

Não havia motivo para se defender. E sentiu naquele momento que sua situação indefesa libertava-a e relaxava-a e, embora não conseguisse se mexer, jamais se sentira tão livre.

Na escuridão e no silêncio, na parcimônia do ar, na falta de sentir necessidades básicas, na descoberta de novas sensações desconhecidas e jamais sentidas, “mergulhou”, este é o melhor termo encontrado, mas que não descreve a experiência.

Quando se deu conta viu-se num lugar deslumbrante, todo em tons de prata a preto. O fundo era de um negro tão profundo que era como uma não cor, um “nada intenso”. O solo era como neve. Fazia muito frio, embora ela não sentisse. Parecia um deserto onde tudo pulsava e tinha brilho que se alternava provocando uma luminescência. Ao centro uma mulher, uma Anciã sentada provavelmente sobre um monte daquele chão, vestindo uma pesada roupa de frio branca, com capuz. Sua pele e cabelos também brancos, cada qual com seu brilho diferente, olhos negros perspicazes.

Do seu lado esquerdo, imponente, sentava-se uma grande loba branca, cuja vasta cabeça se erguia entregando-se às carícias da mão daquela Deusa, enterrada entre suas orelhas. Toda imaculadamente branca, com pelos densos e compridos que a protegiam como cobertor, seus olhos azuis eram pura prontidão.

Lembrando que branco, aqui, é apenas uma palavra mais próxima para aqueles tons que brilhavam e se transformavam, conforme pulsavam e se mexiam, como um farfalhar numinoso, mimoso.

A mão direita segurava uma flor, único elemento colorido naquela desconcertante cena. Tinha um caule grosso e verde vivo que subia em direção a uma flor de extraordinária beleza, cujas pétalas abriam e fechavam em tons de laranja, conforme ela brincava com o caule entre seus dedos.

Por um momento, ao se depararem com aquela visão tão deslumbrante umas das outras, assustaram-se, provocando um movimento que as fez entender que algo inusitado acontecia.

Foi quando os olhos se encontraram e ela se deparou com os incríveis olhos negros daquela figura divina imersa em brilhos prateados e dos profundos olhos azuis da majestosa loba branca.

Deste encontro nasceu o mais belo sorriso e o caule daquela flor começou a mudar sua forma e foi se transformando  num enorme guarda chuva colorido, o cabo entalhado abrindo-se em multicores que alegravam todo aquele ambiente, celebrando a abertura do portal, o encontro improvável.

Ao abrir os olhos deparou-se com muitas pessoas ao seu redor, todas com expressões extremamente preocupadas, e ela não entendia o porquê. Perguntaram se estava bem, assentiu. Na verdade, nunca se sentira melhor.

Mãos hábeis fixavam-na a uma maca que logo seria transportada por aquele helicóptero, pairando logo ali em cima, com seu barulhento motor ligado e hélices que não cansavam de girar e fazer ventania.

Começou a sair do seu torpor e silêncio. Algo grave realmente acontecera. Voltou às suas lembranças, afinal, era só o que lhe restava, já que tantas pessoas resolviam seu destino por ela.

Sempre teve medo daquela geringonça, jamais pensara em entrar numa delas, agora ali estava ela, sem nenhuma autonomia sobre seu destino e desejos.

Olhava o que ocorria à sua volta como se não lhe dissesse respeito. Aos poucos aquele burburinho passava a fazer sentido e algumas palavras começaram a ser identificadas pela sua consciência: milagre,  viva, inacreditável, respira, letargia, magrinha…

Nossa! Tudo aquilo que estava acontecendo era mesmo por sua causa? Foi quando a lembrança veio. Estava caminhando quando sentiu o chão falsear, seu pé afundar e mais nada. Lembrou de acordar, da imobilidade, do transe, do mergulho, da visão magnifica, quando finalmente conseguiu ouvir frases inteiras, e alguém ao seu lado dizia: “parece que ela está ouvindo agora”, “incrível ela estar ilesa depois de cinco dias soterrada!”, “como será que ela conseguiu?”

Ela mesma não sabia. No seu coração ficou a emoção do mergulho que a levou ao centro da terra, onde ficou “plantada”, nutrindo-se como uma planta, cuidada por Pachamama e sua Loba Sagrada.

Os mistérios da vida são insondáveis. Como alguém se salva de graves acidentes enquanto outros caem um tombo bobo e morrem…

É por aí que caminhamos. E nunca descobriremos.

“É só mistério, não tem segredo”… (Marisa Monte)

E você, qual sua melhor lembrança? Dizem que recordar é viver… Conte um conto, aumente um ponto. Limpe seu coração.

 

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