Foto: Satya Joy

#partiuavalon

3º DIA – 08/08/2013 – QUINTA FEIRA

“Para entrar na floresta precisamos renunciar a nossos antigos hábitos e identidade.” … “E você? O que está buscando?” – (Jean Shinoda Bolem – O caminho de Avalon)

Na véspera ainda cheguei a conversar com algumas pessoas, mas estávamos tão eufóricas, efusivas e festivas, os olhos não alcançando tudo que queriam ver, que ainda não se dispunham a ser postos nos olhos à frente, quando o encontro acontece…

Depois de tantas emoções, uma repousante noite de sono, não sem antes um bom banho de banheira e um papo gostoso com Elizia, que me mostrava um pouco mais de si e eu a ela. Compartilhamos as experiências do dia, o encantamento em que nos encontrávamos, o momento de vida que vivíamos, os seres que amávamos.

Falamos sobre nossas andanças, trocamos impressões construindo uma relação de afeto e cumplicidade que se configuraria a cada dia subsequente, até que o sono nos venceu e, naquela minúscula cama daquele minúsculo quarto, localizado em um dos maiores hotéis que já conheci, em total escuridão e silêncio, mergulhamos na céltica noite dos sonhos.

O hotel era enorme, lembro-me de alguém dizendo que tinha mais de mil apartamentos. O café da manhã, ou “breakfast”, estava a pleno vapor. Funcionários e hóspedes às vezes trombando-se em seus afãs.

Lembro-me, na fila esperando minha vez, de ficar olhando tudo em volta, querendo absorver aquela realidade, que estava acontecendo, de que eu, euzinha, estava em um hotel em Londres tomando meu primeiro breakfast, já que na véspera, em correria, bastou um café e uma fruta.

Além disso, integrando-me ao grupo, que estava mais próximo, mais aconchegante e risonho. À medida em que nos servíamos nos acomodávamos em mesas formando pequenos grupos e a conversa corria solta, livre e feliz.

A partir desse momento teríamos sempre um micro-ônibus e um guia turístico falando português. Foram alguns no decorrer da viagem e não me lembro dos seus nomes, mas tenho enorme gratidão pelo que representaram para nós. Um bom guia de turismo faz toda diferença numa viagem como essa. Bem como um bom motorista.

Nosso primeiro guia, que não lembro o nome, Silvana e Diego

Foto: Satya Joy

E lá fomos nós com nosso primeiro guia, um inglês que tinha morado em Recife, Pernambuco, para conhecer Londres, agora da perspectiva coletiva, guiada e motorizada.

Minha percepção inicial do povo inglês foi de muita formalidade e, paradoxalmente, um senso de humor bem característico, que se manifesta quando menos se espera, causando surpresa e muito riso.

Na véspera, passeando com Lize, tinha um rapaz vestido de soldado, com aquele chapéu icônico, alto, preso no queixo,  dispondo-se a ser fotografado com turistas, tendo uma canequinha aos seus pés para depositarmos moedinhas. Fiz uma pose formal com ele, Lize captou, aí ele me perguntou se eu queria tirar uma foto “funny” (engraçada), respondi que sim. Estava de frente para ele quando me agarrou pela cintura e puxou minha perna em volta do seu corpo, Lize fotografou, eu morrendo de rir. Pena que perdi essa foto… Ele estava risonho mas rapidamente recuperou a fleugma aguardando o próximo turista… Claro que mereceu sua moedinha…

Fizemos um tour pela cidade, o guia explicando os lugares por onde passávamos, contou que Londres foi fundada pelos romanos há cerca de dois mil anos atrás, quando invadiram o local através do Rio Tâmisa. Falou sobre a realeza britânica, o nascimento do primeiro neto da Lady Dy, as tradições que se mantinham por gerações.

Passamos por um local que ele disse chamar-se “City of London”, o mais importante distrito financeiro da cidade, centro de poder.

Entendi que ali atuam Bolsa de Valores, Câmbio, Commodities, etc, etc, etc, coisas que não conheço direito e não faço questão de conhecer.

Soubemos que a prestação de serviços financeiros para o mundo todo é uma das principais fontes de renda do país.

O ônibus estacionou e fomos caminhar, tiramos muitas fotos em bosques e jardins em torno do Palácio de Buckingham, onde podíamos apreciar incríveis obras de arte espalhadas ao seu redor, esculturas representando ícones ancestrais da sua cultura e origem, muita limpeza nas ruas apesar de tanta gente para lá e para cá.

Fotos: Mariana Terra

Abraçamos as árvores, celebramos tantas flores e cores diferentes, saudamos o sol, conversamos, fotografamos.

Anka Chaska – Foto: Satya Joy

Foi nessa ocasião que me lembro de Sahwenya dirigindo-se a mim, caminhamos por algum tempo e conversamos, trocando impressões, nos conhecendo. Ela é uma mulher muito especial, de beleza diáfana e voz doce, com seu sotaque catarinense, olhar sempre acolhedor e sorriso amoroso.

Foto: Satya Joy

Parceira de longa data de Joyce, já haviam feito muitas viagens juntas, especialmente para Macchu Picchu, muitas vezes levando peregrinos em jornadas espirituais, que tinham por finalidade não apenas a visita a locais significativos, mas o encontro consigo mesmo a partir de vivências conduzidas por ela.

Terapeuta das Constelações Familiares e criadora da Natural Medicina Alma da Terra, baseada na sabedoria das Avós, com formação em Pedagogia e experiência na educação infantil, tinha agora sua função de Guia Espiritual, sempre pronta a nos ajudar a entender tudo que se mobilizava em nós no decorrer dessa jornada.

Chegamos a um lugar onde pudemos apreciar a banda militar oficial ensaiando, fazendo seu “esquenta” com todo garbo e imponência, pois ia acontecer a cerimônia de troca da guarda, tradição ancestral que se repete há séculos, e que é um verdadeiro espetáculo, muito bem ensaiado por homens que dão a impressão de ter muito orgulho de fazer parte daquilo tudo.

Fotos: Mariana Terra

Os “figurinos”, fantasias, fardas, uniformes, como queiramos chamar, impecáveis. Os instrumentos em suas mãos luziam. O movimento era uníssono, guiado pelo som e ritmo.

A Troca da Guarda é uma importante atração turística, tratando-se de uma cerimônia que acontece na entrada principal do Palácio de Buckingham, quando os guardas responsáveis pela segurança do palácio são substituídos de maneira bem peculiar, acompanhados pela banda musical militar.

Foto: Isis de Castro.

Acontece durante 45 minutos aproximadamente, quando guardas com enormes chapéus de pelo desfilam por um curto percurso tocando músicas militares e contemporâneas, acompanhando aqueles cavaleiros, montados em cavalos magníficos e treinados.

Tinha muita gente se espremendo para não perder a ocasião. Fomos nos deslocando em conjunto, buscando um ponto onde pudéssemos apreciar bem os cavaleiros, que já vinham em formação, extremamente elegantes, onde até os cavalos tinham sua indumentária e ostentavam uma presença enérgica e imponente.

Assistimos tudo, foi muito emocionante. Sentimos a força daquela egrégora, como iríamos sentir ainda muitas vezes à frente, ao entrar em contato com algo tão diferente das nossas referências, mas que nos fazia entrar numa onda de percepções e memórias corporais ainda inexploradas, trazendo sensações de muito prazer e alegria por ali estarmos naquele momento.

Uma das coisas impressionantes para mim foi a expressão facial e corporal de toda aquela multidão de soldados, que se mantém inalterada o tempo todo. Não riem, não se distraem, não olham para o lado, foco total na missão. Seu deslocamento e movimento, tanto dos montados quando dos demais, perfeito, não vi falhas. Nem os cavalos erram a coreografia. Uma performance incrível.

Quando há a troca simbólica da guarda o evento se encerra e aí a debandada é geral.

O guia sugere uma pausa para compras e almoço. Formamos pequenos grupos e nos dispersamos, marcando encontro em um local e horário para prosseguirmos.

…que tal?…

Mariana, minha companheira do avião, e eu nos juntamos e fomos explorar as redondezas buscando onde gastar e o que comer.

Entramos em galerias repletas de pequenas lojas vendendo tudo que gostaríamos de comprar. Muitas opções de alimentação. Paramos numa tenda onde dois irmãos italianos ofereciam comida italiana que eles iam fazendo ali, na hora, diante de nós. Eram engraçados e chamavam a freguesia cantando e fazendo graça, levando as pessoas ao riso e a pararem para apreciar aquela performance ao ar livre.

Não tinha lugar para sentar ali, era pegar a comida e buscar um canto para comer. Tivemos a oportunidade de conversar mais. Mariana é uma mulher linda e madura, tem uma filha e um filho que ama muito, é mística e leva isso muito a sério. No meu entender, vi-a como uma Sacerdotisa da Deusa. Depois percebi que todas éramos. E Diego também, um lindo sacerdote… Ela mora em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde também é focalizadora de Danças Circulares. Adora igualmente a tecelagem, compondo obras incríveis.

Sua paixão é viajar. Já estava com planos de conhecer as pirâmides do México e fazer uma viagem à Rússia. Tinha um relacionamento tranquilo com um homem que admirava e por quem nutria grande afeto. Meiga, carinhosa, atenciosa.

Caminhamos admirando tudo, brincamos nas cabines telefônicas que tanto já tínhamos visto em filmes, fizemos algumas comprinhas de bobagens e voltamos a nos encontrar com o grupo.

À tarde fui para meu segundo passeio pelo Rio Tâmisa, sempre incrivelmente deslumbrante, agora com um guia que foi pontuando os lugares e pontos relevantes, contando fatos da história, da guerra, da Ponte Pênsil, da famosa Torre de Londres e sua história de horrores, que fomos visitar em seguida.

Fotos: Mariana Terra

Para chegar lá tínhamos que atravessar uma ponte onde o guia informou que era o lugar onde se espetavam cabeças e restos mortais de condenados que eram executados logo ali, na praça em frente à Torre, sempre de modo muito cruel.

Um calafrio passou-me pela espinha. Lembrei de duas coisas simultaneamente. Primeiro, quando disse à minha mãe que ia para Londres e perguntei o que queria que lhe trouxesse, ela respondeu: “Traga-me um fantasma.” – “Um fantasma???” – respondi, e ela com carinha travessa, disse: -“você vai entender… depois me conta.” Ela esteve algumas vezes por lá em sua vida… Estava começando a entender…

Também outra impressão forte foi de Oscar Wilde, um dos maiores escritores ingleses, de quem sou grande admiradora, acreditando ter lido praticamente toda sua obra, que ali esteve preso durante dois anos, quando escreveu o livro que considero sua maior obra prima, “De profundis”, carta escrita por ele naquela prisão, em profundo sofrimento e decadência moral e física, cujo tema principal é a dor. Vale conhecer melhor este grande artista. Seu livro mais conhecido é “O retrato de Dorian Gray”. No seu centenário foi lançado um filme chamado “Wilde”, que conta esta história.

Não tive coragem de entrar nesse lugar. Nem nas lojinhas com artigos que remetiam àquele tema. Fiquei por ali, apreciando o Rio Tâmisa e o movimento, aguardando o pessoal. Um local que exala dor e sofrimento.

Dali fomos visitar o Big Ben, muito bem avistado o tempo todo de muitos pontos da cidade. Foi quando fiquei sabendo que Big Ben, na verdade, é o sino que foi instalado no Palácio de Westminster em 1859. O termo também é usado para se referir à torre do relógio onde o sino está localizado, estrutura conhecida como Elizabeth Tower, rebatizada no Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II. Antes disso era chamada apenas de “Clock Tower” (Torre do Relógio).

Foto: Mariana Terra

Ali está o segundo maior relógio de quatro faces do mundo. Pelo que o guia falou, há um maior nos Estados Unidos. Construída em estilo neogótico, com quase 100 metros de altura, foi concluída em 1858, tornando-se um dos símbolos mais emblemáticos do Reino Unido, frequentemente presente em filmes ambientados em Londres.

Fica localizado num plano alto, de onde se tem uma vista ampla, panorâmica e incrível da cidade. Ali tiramos muitas fotos e aproveitamos para descansar um pouco de tantas andanças. Só não foi possível entrar no prédio porque naquele momento passava por reformas e manutenção, não estando aberto para visitação.

Dali voltamos para o hotel, fomos tomar um belo banho e jantar. Um grupo se formou para ir até aquela magnífica roda gigante, outro símbolo e referência no mundo todo, e fui chamada. Está certo que eu estava cansada, mas me arrependo amargamente de não ter acompanhado o pessoal. Depois me contaram as aventuras, a vista, a emoção e a rica experiência. Ah, se arrependimento matasse…

De qualquer forma, estava muito feliz, comi alguma coisa, ai que saudade do arroz feijão, meti-me naquela maravilhosa banheira com sais, relaxei, me senti, me percebi, agradeci, dormi…

Aprendizado nº 6: Abrir-se… Mesmo que às vezes seja difícil, mesmo que a defesa se manifeste, abrir-se…

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STONEHENGE: CICLO NO INTERIOR DE CICLOS… – Isis de Castro. – da série CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS

STONEHENGE: PREFÁCIO – Isis de Castro. – da série CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS

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