#partiuavalon

7º DIA – 12/08/2013 – SEGUNDA FEIRA

“De certa forma, essa viagem me parece uma continuação de um caminho que já percorreu meia existência, um ritual iniciático talvez, e com certeza a introdução a algo sobre o que tenho apenas uma vaga noção.” – Jean Shinoda Bolem – O Caminho de Avalon

ROTEIRO DIA A DIA

Dia 6 – 12 de Agosto – Segunda Feira – Edinburgh

09:00     Partida para a Ilha Sagrada de Lindisfarne

11:00     Chegada a Ilha para passeio de Barco

13:00     Almoco livre na ilha

15:00     Partida para Edinburgh

17:00     Chegada a Edinburgh para visitar a cidade (show de Música Escocesa no Hotel Jamie´s)

Pernoite no Hotel em Edinburgh

O dia começou animado com a perspectiva de conhecermos Lindisfarne, a ilha sagrada, repleta de histórias antigas que remetem à Idade Média, reis e rainhas.

Tomamos nosso breakfast e caminhamos para o ônibus na costumeira euforia e intimidade que só aumentava quanto mais convivíamos e vivenciávamos os momentos mágicos da viagem em unidade.

…UAU!!!…

Ali nos esperavam o motorista e o guia. E que guia! Que homem lindo! Falava português fluente, era escocês mas morara em Portugal algum tempo. Enquanto nos deslumbrávamos com seus bem longos cabelos e barba loiros, olhos azuis e uma grande simpatia, ele já nos informava que tinha namorada e que estava bem feliz em nos receber…

…MUITO GATO!…

Tivemos um pequeno atraso, o motorista errou o caminho, finalmente chegamos.

O local de embarque era uma praia à beira do Mar do Norte, o dia estava nublado ameaçando chuva, como é comum naquele pedaço de mundo.

 

Diante de nós um barco vermelho inflável, com capacidade para no máximo umas 20 pessoas, éramos treze mais o guia, o comandante, um típico “lobo do mar”, e seu filho que o ajudava, ambos lindos homens, um mais maduro e o outro jovem, aparentando muita confiança no ofício, experiência e conhecimento daquele mar que se agitava diante de nós e que, confesso, me assustava bastante.

Tenho medo e fascínio profundos pelo mar desde sempre…

Enquanto o embarque era preparado conversamos com uma família que abria a porta do carro para libertar dois lindos cães, que alegremente se espalharam pelo local.

Ao nos verem, em agasalhos e expectativas, ficaram curiosos e uma senhora começou a conversar e perguntou de onde éramos, respondi: “Brazil”, e ela: “Wow! I can´t imagine 35 degrees centigrades in Summer…” (Não posso imaginar 35 graus centígrados no verão).

Rimos, divertidas, afinal aquela era uma realidade tão comum para nós… Respondi-lhe então que “and I can´t imagine 10 or 20 negative degrees centigrades in Winter…” (e eu não posso imaginar 10 ou 20 graus centígrados negativos no inverno).

É tão bom interagir com as pessoas que moram no local! Absorver um pouquinho da sua realidade, trocar sorrisos, superar diferenças.

Daí entramos no barco, com todo apoio e cuidado daquela tripulação (seria “bi-pulação?… brincadeirinha…) experiente.

Nosso medo estampado em nossos rostos que se cruzavam em olhares de “ai meu Deus, e agora?”…, rapidamente transformou-se num silêncio tenso enquanto o barco singrava aquele mar agitado.

A viagem foi repleta de emoção, balançando bastante para lá e para cá, para cima e para baixo, o tempo nublado, mas eles conduziam com tamanha mestria a embarcação que acabava gerando certo conforto para nossas almas aflitas e medrosas.

…NOSSOS SALVADORES LOBOS DO MAR…

Pessoalmente, tremia como vara verde, de medo, de frio, de emoção, de adrenalina, de conexão, mais um portal a transcender… medos a superar…

Ao mesmo tempo, uma vista incrível descortinava-se à nossa volta, tendo como meta a Ilha de Lindisfarne à frente, com seu castelo ancestral despontando na paisagem, pontuando sua presença contra o céu azul escuro.

Ficamos sabendo que Henrique VIII, rei da Inglaterra, passava férias ali. Imaginei Ana Bolena atravessando aquele mar, subindo as escadas do castelo, brincando com suas amas…

Até que nem demorou tanto assim, talvez uma meia hora a quarenta minutos, e, à distância, já podíamos ver e ouvir um homem, paramentado a caráter, com o indefectível kilt, tocando sua gaita de fole.

Sempre admirei o som deste instrumento que naquele momento acariciava nossos ouvidos com canções tão típicas, e aquele homem tocando o que aprendera com seus antepassados me emocionava grandemente, fazendo-me já pensar que valera a pena enfrentar o medo para chegar àquele local tão cheio de vida e histórias que gritavam sua energia ao nosso redor.

Num barco menor conduziram-nos à margem, onde nos reunimos e começamos a caminhar em direção ao castelo, que era o que se sobressaía e atraía nossa atenção e curiosidade.

As canções do menestrel ficavam mais próximas e os nossos lobos do mar nos informaram que ele tocava para nós, para nos receber e, sinceramente, pessoalmente senti-me acolhida e convidada a entrar no clima daquela ilha tão especial, embora pequena, mas cheia de significados e memórias.

A caminhada era agradável, tinha muito turista, a vista de uma beleza indescritível nos rodeava por todos os lados.

Chegamos ao castelo, adentrá-lo foi como visitar todas as minhas histórias de contos de fadas da infância. Era como eu imaginava que seriam os castelos medievais.

Subimos por escadas que formavam uma espiral até o topo, onde se distribuíam os aposentos, salões, cozinha, quartos, demais dependências. À medida que subíamos a vista se tornava mais inebriante.

Nosso guia maravilhoso explicou que aquela construção era proposital, para defender o castelo, pois em caso de invasão despejavam água ou óleo quentes sobre os inimigos.

Os ambientes são mantidos como eram originalmente, é impressionante o cuidado e conservação do espaço, móveis, utensílios. Parece que Henrique VIII chegará a qualquer momento para o weekend

Viajamos no tempo e na imaginação, virei criança curiosa e buliçosa, até nos fartarmos, para então descermos a colina para nos encaminharmos em direção à pequena cidade, tão linda, organizada e repleta de surpresas inesperadas.

Lindisfarne é ilha de maré. Quando a maré baixa, está ligada a Northumberland por uma estrada. Quando a maré sobe torna-se uma ilha.

Paramos no caminho para melhor apreciar o músico escocês, tiramos fotos com ele, deixamos nossas moedinhas…

É um lugar bem pequeno e, segundo a lenda, foi o primeiro local a ser invadido pelos vikings em tempos remotos, num ataque arrasador, que ficou nos anais das histórias locais.

Visitamos as impressionantes ruínas do Priorado, contemplamos o ‘Arco do Arco-Íris’, que tem se mantido incólume no tempo, surpreendentemente, perambulamos pelas ruínas ricamente decoradas.

Sua localização nesta ilha tão distante contribui muito para a atmosfera única do Priorado, isolado do mundo, alcançado por uma ponte visível somente na maré baixa.

Segundo a história, os monges chegaram à ilha pela primeira vez no ano de 635, mas fugiram, após violento ataque viking, em 793 DC. As ruínas são do início do século XII, quando a ameaça de novos ataques havia diminuído.

A propósito, mergulho na história mesmo fizemos ao visitar o museu e a loja do Lindisfarne Center, com exposição de peças fantásticas que remetem ao universo do Rei Arthur e do antigo Priorado, o mundo de Avalon e seus mistérios ilustrando o cotidiano dos monges.

Não à toa a ilha é considerada sagrada.

Ao ar livre havia uma exposição de corujas enormes, belíssimas, impressionantes em sua placidez, coisa linda de ver.

Passeamos e nos fartamos de história, cultura, memórias, magia e ancestralidade.

Ao voltarmos para o barco achei que já não cabiam mais emoções e sensações belíssimas, mas me enganei…

Nosso lobo do mar informou que gostaria de nos levar a um lugar muito especial antes do nosso regresso ao continente.

E lá fomos nós em sentido diferente da costa. Ao longe avistamos um pequeno arquipélago. Conforme nos aproximamos dava para ver uma enorme quantidade de focas em seu santuário. Senti profunda reverência por aquele habitat.

Foi solicitado que não nos levantássemos, ficássemos em silêncio, no máximo falar baixo. Na verdade ficamos profundamente reverentes àquelas presenças. Milhares de olhos redondos focaram (literalmente) em nós. Tinha um grandão, certamente o macho dominante, que já ligou as antenas à nossa aproximação, e em determinado momento reinou um profundo silêncio. Nós, invadindo aquele espaço sagrado de vida delas, elas nos observando para ver se éramos ou não uma ameaça e nós a observá-las.

Logo após, ao se sentirem mais seguras, muitas e muitas nadaram em direção ao barco e nos rodearam. A impressão que eu tinha é que estavam “fo-focando”. Ouvíamos o murmúrio que nitidamente era a forma de comunicação entre elas. Verdadeiramente emocionante.

Interagimos com elas, algumas mais atrevidas chegavam mais perto. Começamos a “conversar” com elas falando baixinho, sorrindo, exalando felicidade.

Mais um momento que palavras não descrevem o suficiente…

Finalmente, caminho da roça, digo, do mar, em direção à terra firme.

Quando nosso comandante pôs o barco no rumo, olhei o horizonte e vi uma pesada nuvem de chuva vindo em nossa direção. Entrei num pânico silencioso, que controlei como pude, tremendo e rezando para a chuva não nos apanhar em alto mar.

Nossa tripulação estava bem tranquila e confiante nos conduzindo, o que dava um certo alívio, mas a verdade é que a nuvem estava ali e estava chegando…

Era muita emoção junta para mim, o medo certamente também, o ambiente em torno, toda aquela beleza selvagem do mar alto e do barco que subia e descia nas ondas, até que senti uma conexão, como nunca antes, muito intensa, com Iansã, a divindade feminina, Orixá do Candomblé que comanda as tempestades, raios e ventos.

Era como se eu a visse montada naquela grande nuvem que me amedrontava e, por incrível que pareça, esta sensação me acalmou.

Enfim chegamos. Foram muitas emoções mesmo.

A volta no ônibus transcorreu tranquila, pois exalávamos ainda grandes emoções e teríamos uma noite movimentada ainda…

Para encerrar com chave de ouro, fomos jantar no restaurante de um hotel onde havia um espetáculo com danças e instrumentos típicos. Nunca vou esquecer do senhor que tocava a gaita de fole escocesa, todo orgulhoso em sua indumentária, apresentando sua habilidade e seu talento com o instrumento, com o qual demonstrava profunda intimidade.

O grupo de dança foi lindo, pessoas lindas, artistas locais com muita alegria elevaram nosso espírito e nosso coração.

Lição nº 10: A coragem sempre aparece… basta seguir…

SE QUISER CONHECER A HISTÓRIA DESDE O COMEÇO, ACESSE:

STONEHENGE: CICLO NO INTERIOR DE CICLOS… – Isis de Castro. – da série CONTOS AUTOBIOGRÁFICOS

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Isis de Castro

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