illustration of A little boy hugging his dog

Gente! Quero falar de inocência.

Li uma notícia hoje que me fez gargalhar. Imagine.  Nos tempos atuais gargalhar com uma notícia…

Um menino de 2 anos sumiu em algum lugar do interior de São Paulo. Pânico geral, mobilização da guarda municipal, da população, da polícia, desespero da mãe, falas da família, julgamentos, fake news

4 horas depois o menino é encontrado, tranquilo, sentadinho e calmo, ao lado do seu cãozinho de estimação. Aliás, foi graças ao latido dele que foram encontrados, do outro lado da pista próxima à sua casa.

Alívio! Gargalhada!

Evoquei a imagem da criança e seu cão em plena prontidão. Em confiança inabalável. Em toda sua pura inocência. Que espírito desbravador! Que amizade incondicional! Alheios a tudo, apenas desfrutavam da presença um do outro num ambiente desconhecido mas que não os assustava, afinal, estavam juntos…

Esta imagem e sentimento me atingiram com alegria, pois lembrei que nesta idade, 2 anos, vivi minha primeira aventura, quando consegui abrir, com meu próprio esforço, o tal do “chiqueirinho” ou “quadrado”, onde odiava ficar. Tudo acontecia fora, por que eu tinha de ficar ali? “Bota ela no quadrado” era a sentença que me revoltava.

É minha mais antiga lembrança, bem impressa em mim, pois sempre que conto essa aventura ativo todas as memórias corporais e sinto as mesmas sensações da ocasião em que, de tanto pular, querendo sair, e forçar, percebi onde era o encaixe do fecho, consegui abrir e saí para o mundo.

Naquele momento o mundo era a sala de jantar, com a luz acesa, mesa posta, sem ninguém. Extasiada, do lado de fora, olhava para a luz acesa lááááá em cima, mesa no alto, podia passar por baixo dela, cadeiras gigantes, tudo era imenso. Que sentimento inesquecível!

Daí minha mãe chegou com mais alguém e se espantaram. Ela, inclusive, validou este momento, pois também se lembrava.

Creio não ter voltado à “prisão” depois disso. E, com certeza, o sentimento de liberdade e conquista fixou-se em mim. Em alguns momentos de vida cheguei a duvidar disso, mas quando conseguia me reconectar comigo mesma, acessava novamente, sempre com a mesma força, esta independência que vive em mim. Na minha inocência.

O outro lado da moeda, sempre tem, é a morte. Falar da morte, perda, saudade…

Minha mãe partiu, de fato. Outro dia dia estava cuidando dela em sua fragilidade. “Eu sou uma velhinha delicada”, ela gostava de dizer, referindo-se a si mesma em determinadas situações e, digamos, modernidades. E era mesmo…

Estivemos juntas desde meu primeiro vagido até seu último suspiro, às 5:55 hs do dia 05 de março de 2021, enquanto ela dormia e eu ouvia os pássaros cantando no amanhecer.

Lua nova. Um privilégio incomensurável para nós duas. Com ela aprendi a nascer, crescer, cuidar, aceitar, envelhecer e… morrer… Uma grande mãe que sempre amou muito seus filhos, netos e bisnetos.

Eu a amo e amarei sempre.

Naquela fatídica manhã, ao constatar sua partida, dirigi-me à sala, sentei na cadeira de balanço e pensava …”e agora?”…

Nesse limbo, ouvi a voz da minha mãe, nítida, alegre e risonha ao meu lado dizendo: “Ah! Agora eu entendi…”

De lá para cá refleti e meditei muito sobre este momento tão intenso e real para mim.

Ela dormia quando exalou seu último suspiro. Hoje creio que ela “acordou”, seguiu em minha direção, sem entender ainda onde estava, e algo a “despertou”: “Ah! Agora eu entendi!” e seguiu seu destino. Esta foi a última vez que a ouvi bem próximo ao meu ouvido com clareza impressionante.

Daí a imagem do menino aventureiro e seu cão remeteram-me ao tom de voz da minha mãe nesse momento inesquecível.

Senti nela (como na criança) o resgate da inocência, a aceitação das coisas como elas são, prontidão, em paz consigo mesma, como quem sabe que cumpriu sua missão. Está pronta para outra. Que se abra o portal…

Como o menino de 2 anos e seu cãozinho, como eu aos 2 anos de idade, minha Mãe Menininha atravessou o portal que tanto temia e desejava em seus últimos dias de vida terrena…

Uma vez me disseram: “você é uma filha excelente”, ao que respondi, “sou a filha que minha mãe criou.”

Este é seu legado. Este é meu legado…

Viva a vida! Viva a inocência! Viva o amor!

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