A VIAGEM DE ANANIAS – Por Géci de Castro Benatto*

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solidão

Como já se habituara a fazer, dirige-se ao banco da praça para aproveitar a calma gostosa e o ar morno da tarde ensolarada, à sombra da árvore florida. Suas roupas bem denotam ser um homem bem situado financeiramente. Mas está só, incrivelmente só. Sua familia e amigos de há muito se afastaram.
Sente o coração que palpita com força, provocando uma sensação dolorida e extremamente desagradável. Senta-se com dificuldade, devagar, como se seu velho corpo tivesse o dobro do peso costumeiro. Uma nuvem lhe turva a mente, mal começa a folhear o livro que trouxera consigo. As letras se embaralham, o pouco que consegue entender foge do conteúdo original. Fica curioso. Era uma biografia – a sua – e nela sua vida é repassada em todas as emoções e cores.
A infância, o lar materno, a escola. Ante seus olhos encantados passam os enlevos e apreensões da juventude, as namoradinhas, os cursos realizados, o primeiro e tão esperado emprego. Volta a viver a doçura do primeiro amor, seu noivado, o casamento. a familia crescendo, a luta pelo pão de cada dia. Percebe com desprazer que no livro está registrado o inicio da sua ganância, sua decadência moral; começam aí suas traições à familia e aos amigos. Revê os métodos escusos que começou a usar para conseguir cada vez mais dinheiro. Lança mão de todos os meios para enganar, suplantando por bem ou por mal quem se interponha em seu caminho.
Certos fatos que ali estão parecem-lhe não ter feito parte de sua vida. Há anos apagara da lembrança para que sua consciência não o fizesse perder o sono. É, pois, com raiva e horror que lê sobre o auge da sua degradação. Ali estão revividas com toda exatidão, as provas do crápula que se propusera ser.
Está com muito frio. O sol, que agora lhe banha o corpo, não o consegue aquecer. Sente os músculos enrijecidos, a seus ouvidos chegam lamentos de dor, gritos de agressão, risadas estrondosas, Figuras dançam a sua volta como num pesadelo.
Quer afastar-se dali, fugir, pedir socorro, mas uma força imperiosa o impede. Embora contra sua vontade, continua lendo a história, a sua história. Parece terem se passado anos. Sente-se sufocar.
O pavor de que se torna presa chega ao ponto máximo ao reconhecer, entre aquelas risadas de escárnio e maldições que continua ouvindo, as vozes dos que, no passar dos tempos, roubara, espezinhara, traíra. Sabia-os mortos.
O sol já se escondeu. A pouca luz que chega até ele é a do poste junto ao canteiro de rosas, lá adiante. Alguém lhe toca o ombro para acordá-lo, seu corpo já rígido, porém, tomba inerte na terra poeirenta e fria.
Ananias, o crápula, se foi. Na multidão que o segue nesta viagem, nenhum amigo o acompanha,

Géci de Castro Benatto*: Foi jornalista, artista plástica, cronista, mulher,  mãe e avó.  Partiu em 2003 deixando sua obra aos cuidados da sua neta jornalista, Lua Benatto. Este texto faz parte do resgate do trabalho dessa sensível mulher que deixou um legado de valores e lições.

 

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